Quarta-feira, 3 de Outubro de 2012
Em que medida sonhar se torna mau?

 

Desde os tempos mais antigos que a mentalidade, por mais que se diga evoluída, permanece com o cliché habitual na boca das pessoas: No meu tempo é que era. Na altura é que era bom. Na altura é que as coisas estavam bem. Na altura é que se era feliz. Na altura é que havia isto, aquilo e mais aqueloutro. Por comparação com o presente é que podem estabelecer ideias destas, mas a verdade é que tudo isto não surge de outra coisa se não da saudade. Mais propriamente da nostalgia, já que a saudade entende-se por algo "curável" e a nostalgia apresenta-se como um ponto sem retorno. Leva então este sentimento à recordação, às memorias mais reconditas. O sonhar acordado não se restrige apenas à capacidade de imaginar, fazer previsões e idealizar um futuro, mas sim um ato consciente/inconsciente de relembrar o que já lá vai. Tecnicamente há a parte do sonho onde comanda o nosso subconsciente quando estamos a dormir, do qual inevitavelmente não temos controlo, mas não será também um ato involuntario o facto de certas lembranças nos virem a memória mesmo estando acordados? Uma simples música, um simples cheiro, podem trazer memórias perdidas na mais infima profundida do nosso ser, do qual nunca nos passaria pela cabeça voltar a relembrar. E é ai que vem uma angustia pela nostalgia que se faz sentir, como sendo algo que se perdeu irrevogavelmente. Ficamos tristes por já não termos o que tivemos.

 

Ampliando o raciocinio, o mesmo ocorre com o que nunca se quer tivemos mas ambicionamos imenso ter. Quantas não foram as vezes que vimos alguma coisa e pensamos que com aquilo, e só aquilo, é que seriamos verdadeiramente felizes e não quereriamos mais nada, e na semana seguinte passamos a querer outra coisa completamente diferente? O mesmo equivale a conseguir o que se ambiciona e depois perder-lhe completamente o interesse, uma vez que já está na nossa posse.

 

Resumindo e concluindo, quer seja algo que se teve ou que se ambiciona ter, porém efetivamente não se tem, não estamos satisfeitos sem ela. Nunca estamos. Falta sempre algo. É um descontentamento permanente idealizado desde há imenso tempo, no qual não se valoriza o que se tem. Aquela necessidade extrema de querer sempre o que não é possível está enraizado de tal forma nas pessoas que o ciclo é constante. Leva-as a questionar-se em que medida se torna então favorável sonhar e ambicionar, se depois vamos acabar por ignorar tudo, uma vez que já é nosso. É possível alterar esta mentalidade? Sim. A mentalidade está disposta a ser alterada? Infelizmente, não.



Publicado por Sara Pagani às 14:55
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